quarta-feira, 27 de julho de 2011

Nas ruas de Cuiabá

     Pelas ruas da cidade encontro um jeito ,meio masoquista, de cavar e perfurar a memória em busca de antigas lembranças .Muitas delas incompreensíveis ,secretas e enigmáticas.Ando pelas ruas atrás de um outro tempo.Um tempo que parece perdido para o povo da minha terra.Mas não quero envolvê-los com palavras tristes e saudosistas.Entendo que é tempo de re-inventar um jeito de olhar Cuiabá.
     Hoje,neste tempo presente.Parte de mim tem orgulho de ser cuiabana de "chapa e cruz" e ama de paixão reviver essas tradições da cuiabania.Outra metade de mim, tem a certeza de que sou uma visitante que precisa reconhecer as mudanças e permanências do tempo de Cuiabá.
     Num passeio pelo centro da cidade, com meu companheiro Kiko Simões ,tivemos "encontros particulares".

Um deles foi com" Maria Taquara ",personagem das ruas cuiabanas que já teve sua história retratada na avenida do samba."De dia MariaTaquara,de  noite Maria mulher."Era o refrão do samba-enredo da União do Porto,que os artistas cantaram em alta voz, querendo que o mundo inteiro ouvisse que aqui, no Centro Geodésico da América do Sul, o povo da rua tinha história pra contar.Nós não olhávamos o mundo focados na falsa moral.Nem estávamos preocupados com as verdades absolutas.Vivíamos num estágio permanente de embriaguês artística.A cultura dessa cidade deve muito aos embriagados de arte e outras "cositas mais"como diria o meu amigo Loro e minha amiga Fatima .

     Mas foi justamente no ponto da MariaTaquara ,que eu constantei o quanto Cuiabá teve pressa de crescer.Quantos bairros desconhecidos!Quantos destinos ignorados!


     Será talvez que esse crescimento jogou  sua identidade cultural na obscuridade?


     Olho pra cima e vejo a nossa "pequena réplica de Notre Drame".Do alto ela anuncia com imponência o poder dos velhos costumes .De novo as lembranças vêm perfurar minha memória.Quando criança enfrentei uma fila "QUILOMÉTRICA" para ganhar um presente natalino.Fiquei horas  na ladeira dessa igreja esperando esse momento ritualesco.Tempo de acreditar em Papai Noel.Recebíamos esse presente das mãos do D.Orlando Chaves, como agradecimento beijávamos seu rico anel.Tempo de obedecer à tradição.Quem se lembr?.Quem se esquece?
    Chego na Praça da República.


As imagens passam em ritmo acelerado.A antiga matriz caída no chão,os olhares indignados dos cuiabanos,os alunos saindo da Escola Modelo Barão de Melgaço e o grupo de teatro Gambiarra que chega anunciando o espetáculo "Qualquer semelhança não é mera coincidência".Augusto Prócoro,Ivan Belém,Liu Arruda, Mara Ferraz,Meire Pedroso,Vital Faria e o menino Wagton paravam o povo apressado para ouvir suas histórias e cantorias.Tempo de Teatro de rua.
     Hoje, sentada na escadaria do Palácio da Instrução,eu colo pedaços desse tempo.

Observo as pessoas que passam indiferentes.Alguns olham de longe.Parecem me acusar de alguma coisa.Ou será que me sinto culpada pela ausência e abandono de tanto tempo.Não sei.Ou como disse o filósofo Sócrates:"Só sei que nada sei".
     Eu construo meu caminho entre a emoção e a razão.Sou um ser humano social e vivo atravessando a ponte entre o real e o imaginário.Talvez a felicidade humana esteja mais perto das coisas imaginárias do que nas verdadeiras.Podemos pensar muitas coisas, muito mais das que podemos fazer e viver.Mas isso é um tanto demasiado onírico para nós.Então, o que importa é a essência daquilo que é verdadeiramente a "cara" de Cuiabá e seu povo nesses tempo modernos.
     No final das contas,contudo:quero proclamar meu amor incondicional pela minha terra.A terra que gerei e pari meus dois filhos.Raoni e Acauã.

Os meninos que alimentam meu sonho.O sonho de voltar.E tomar guaraná,chupar cajú,comer peixe com banana e tomar banho de cachoeira na Chapada.E de cantar e contar as dores e alegrias do meu povo nas ruas de Cuiabá.

Meire Pedroso
Arte-educadora e atriz cuiabana de "chapa e cruz"
Fotos:Kiko Simões
Amantes da vida e da arte.

2 comentários:

  1. Meire... quanta beleza retratada em suas palavras! Palavras que denotam lembrança, saudosismo... Palavras transbordantes de orgulho de ter participado do passado dessa cidade.. e de tê-la deixado como herança para seus filhos! Parabéns!!!

    ResponderExcluir
  2. Querida, emocionante seu texto. Escrito com a emoção e o olhar crítico de quem ama esta cidade, assim como eu. pena que os que encontram-se no poder não a respeitam e nem ao menos a amam...
    Ivan Belém

    ResponderExcluir