domingo, 23 de setembro de 2012

CAIC D.Pedro:Tantas vidas,muita história pra contar.





             Em 1993 cheguei em São José dos Campos depois ter fechado mais um ciclo da minha vida.Uma nova porta se abria na minha relação com o mundo. Pouco conhecia dessa cidade,embora por diversas vezes tenha pedido pouso a ela para chegar até o mar.Portanto, São José pra mim sempre foi um lugar de passagem.Jamais imaginei que fincaria meu mastro nesse chão onde a tecnologia e a cultura caipira sentam na mesma mesa.Sentia medo de sua modernidade, mas eu precisava enfrentar meus medos.Precisava me reencontrar com o mundo, aprendendo mais sobre ele e assim aprender mais sobre mim mesma.Quem sou eu?Que caminho quero tomar como mulher,artista e educadora?Essas perguntas permeavam minha cabeça naqueles tempos.
            O meu trabalho como professora de história na EMEF D.Pedro de Alcântara teve início no mesmo ano, quando assumi 12 aulas ainda em regime de substituição.Lembro-me que a pessoa da secretaria que me encaminhou pra escola alertou-me para os perigos do lugar.Pesquisei no jornal da cidade notícias sobre a região.Precisava ter uma visão, nem que fosse superficial, da realidade social daquela comunidade.O quadro traçado pela imprensa não era animador.A região se apresentava pra mim como uma das mais violentas.E a escola?Como ela dialogava com essa realidade?
           Quando entreguei o encaminhamento para a diretora, ela leu e depois olhou pra mim e disse: ”aqui tem que trabalhar de acordo com a realidade”.Imaginei que ela queria dizer que eu deveria trilhar os caminho da filosofia de Paulo Freire.Em Mato Grosso já tinha mantido meus primeiros contatos com as idéias desse educador.Para Freire, só a libertação dos opressores feitos pela movimentação e conscientização dos oprimidos, poderia ser o elo propulsor para construir uma sociedade de iguais.
           Pela primeira vez eu me deparava com uma realidade, onde o conflito entre o oprimido e o opressor era gritante.O bairro fica localizado numa região periférica da cidade.Seus moradores eram vistos como ameaça à segurança social da outra parte da população.A violência era marcante.Quase todo o dia se ouvia comentários de mais um jovem adolescente assassinado.Um dia estávamos discutindo no HTC a violência na região , quando derepente ouvimos tiros e gritos das crianças que estudavam no período da tarde.Era mais um aluno marcado para morrer na porta da escola.
     Nessa nova empreitada ,Paulo freire e Rubens Alves foram meus guias.
           Rubem Alves pergunta: violentos, os adolescentes da periferia?Ou serão as escolas que são violentas?Mas eu me perguntava.Não teria a sociedade violentado o desejo de aprender dos nossos alunos?
           Diante da resistência dos alunos em participar das atividades, fui buscar na linguagem teatral instrumentos que pudessem me ajudar a despertar no interior de cada um a sensibilidade artística, pois sabia que só assim eles seriam capazes de criar um imaginário e fazer um reencontro com suas identidades culturais.Para isso, foi necessário que eu direcionasse meu olhar para o mundo vivenciado por eles.Que eu soubesse reconhecer e identificar seus valores, seus desejos e suas habilidades.Naquela época a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, através da Ação cultural descentralizada, promovia nos fins de semana na escola , o movimento Hip Hop.Os alunos elegeram o movimento como um canal direto para dialogar com o mundo, manifestando suas insatisfações e seus desejos na poética do RAP¹.[1] o grito da periferia contra os valores pré-estabelecidos da ideologia dominante.
 “O aprendizado foi duro e mesmo diante desse revés não parei de sonhar fui persistente porque o fraco não alcança a meta. Através do rap corri atrás do preju e pude realizar meu sonho”.(A vida é um desafio.Racionais Mc’s)
            Percebi que esse era o caminho.Pesquisei na literatura de cordel obras com temas históricos e apresentava aos alunos no ritmo do rap.Primeiro eu cantava sozinha, depois a sala inteira cantava comigo.Assim “entre tapas e beijos” descobrimos um caminho que nos possibilitasse a construção do conhecimento.Os conflitos existiam e existem até hoje, mas não resistem aos encantos da arte.
     A minha experiência pedagógica na EMEF D.Pedro de Alcântara se concretizou na convivência com os professores que marcaram esses vinte anos de história da escola.Rica convivência.A partir dela eu recuperei meu lugar no mundo.Suportei a dor da ausência dos meus filhos.Procurei fazer por aqueles jovens o que talvez tenha deixado de fazer pelos meus meninos.Mas fiz com dedicação e compromisso,pois acredito na grandeza do ser humano.
Nessa escola,existe um grupo de professores que luta pra rebentar os arames da gaiola.Que quer ver seus alunos alçando vôos desafiantes, traçando com suas asas seu próprio destino.Mas esta é uma luta constante contra as gaiolas da burocracia que impera na ação pedagógica.Como declara Rubens Alves:”pobres professores, também engaiolados a ensinar o que os programas mandam,...”
Nesses vinte anos,graças à nossa parceria, criamos coragem para enfrentar aqueles que tentaram nos privar da alegria, impondo as suas verdades tiranas.
Acredito na arte.Ela é necessária na educação.Ela nos tira do estado de hibernação e abre as portas de nossa consciência para uma reflexão crítica sobre a forma que escolhemos para dialogar com nossos alunos e com o mundo.
Salve o CAIC!
Salve todos que ajudaram a construir esses vinte anos de história!






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