CAIC D.Pedro:Tantas vidas,muita história pra contar.
Em 1993 cheguei em São José dos
Campos depois ter fechado mais um ciclo da minha vida.Uma nova porta se abria
na minha relação com o mundo. Pouco conhecia dessa cidade,embora por diversas
vezes tenha pedido pouso a ela para chegar até o mar.Portanto, São José pra mim
sempre foi um lugar de passagem.Jamais imaginei que fincaria meu mastro nesse
chão onde a tecnologia e a cultura caipira sentam na mesma mesa.Sentia medo de
sua modernidade, mas eu precisava enfrentar meus medos.Precisava me reencontrar
com o mundo, aprendendo mais sobre ele e assim aprender mais sobre mim
mesma.Quem sou eu?Que caminho quero tomar como mulher,artista e educadora?Essas
perguntas permeavam minha cabeça naqueles tempos.
O meu trabalho como professora de história
na EMEF D.Pedro de Alcântara teve início no mesmo ano, quando assumi 12 aulas
ainda em regime de substituição.Lembro-me que a pessoa da secretaria que me
encaminhou pra escola alertou-me para os perigos do lugar.Pesquisei no jornal
da cidade notícias sobre a região.Precisava ter uma visão, nem que fosse
superficial, da realidade social daquela comunidade.O quadro traçado pela
imprensa não era animador.A região se apresentava pra mim como uma das mais
violentas.E a escola?Como ela dialogava com essa realidade?
Quando entreguei o encaminhamento
para a diretora, ela leu e depois olhou pra mim e disse: ”aqui tem que
trabalhar de acordo com a realidade”.Imaginei que ela queria dizer que eu
deveria trilhar os caminho da filosofia de Paulo Freire.Em Mato Grosso já tinha
mantido meus primeiros contatos com as idéias desse educador.Para Freire, só a
libertação dos opressores feitos pela movimentação e conscientização dos
oprimidos, poderia ser o elo propulsor para construir uma sociedade de iguais.
Pela primeira vez eu me deparava com
uma realidade, onde o conflito entre o oprimido e o opressor era gritante.O
bairro fica localizado numa região periférica da cidade.Seus moradores eram
vistos como ameaça à segurança social da outra parte da população.A violência
era marcante.Quase todo o dia se ouvia comentários de mais um jovem adolescente
assassinado.Um dia estávamos discutindo no HTC a violência na região , quando
derepente ouvimos tiros e gritos das crianças que estudavam no período da tarde.Era mais um aluno marcado para morrer na porta da escola.
Nessa nova empreitada ,Paulo freire e
Rubens Alves foram meus guias.
Rubem Alves pergunta: violentos, os
adolescentes da periferia?Ou serão as escolas que são violentas?Mas eu me
perguntava.Não teria a sociedade violentado o desejo de aprender dos nossos
alunos?
Diante da resistência dos alunos em
participar das atividades, fui buscar na linguagem teatral instrumentos que
pudessem me ajudar a despertar no interior de cada um a sensibilidade
artística, pois sabia que só assim eles seriam capazes de criar um imaginário e
fazer um reencontro com suas identidades culturais.Para isso, foi necessário
que eu direcionasse meu olhar para o mundo vivenciado por eles.Que eu soubesse
reconhecer e identificar seus valores, seus desejos e suas habilidades.Naquela
época a Fundação Cultural Cassiano Ricardo, através da Ação cultural
descentralizada, promovia nos fins de semana na escola , o movimento Hip Hop.Os
alunos elegeram o movimento como um canal direto para dialogar com o mundo,
manifestando suas insatisfações e seus desejos na poética do RAP¹.[1] o
grito da periferia contra os valores pré-estabelecidos da ideologia dominante.
“O aprendizado foi duro e mesmo diante desse
revés não parei de sonhar fui persistente porque o fraco não alcança a meta.
Através do rap corri atrás do preju e pude realizar meu sonho”.(A vida é um
desafio.Racionais Mc’s)
Percebi que esse era o
caminho.Pesquisei na literatura de cordel obras com temas históricos e
apresentava aos alunos no ritmo do rap.Primeiro eu cantava sozinha, depois a
sala inteira cantava comigo.Assim “entre tapas e beijos” descobrimos um caminho
que nos possibilitasse a construção do conhecimento.Os conflitos existiam e existem
até hoje, mas não resistem aos encantos da arte.
A minha experiência pedagógica na EMEF
D.Pedro de Alcântara se concretizou na convivência com os professores que
marcaram esses vinte anos de história da escola.Rica convivência.A partir dela
eu recuperei meu lugar no mundo.Suportei a dor da ausência dos meus
filhos.Procurei fazer por aqueles jovens o que talvez tenha deixado de fazer
pelos meus meninos.Mas fiz com dedicação e compromisso,pois acredito na
grandeza do ser humano.
Nessa escola,existe um grupo
de professores que luta pra rebentar os arames da gaiola.Que quer ver seus
alunos alçando vôos desafiantes, traçando com suas asas seu próprio destino.Mas
esta é uma luta constante contra as gaiolas da burocracia que impera na ação
pedagógica.Como declara Rubens Alves:”pobres professores, também engaiolados a
ensinar o que os programas mandam,...”
Nesses vinte anos,graças à
nossa parceria, criamos coragem para enfrentar aqueles que tentaram nos privar
da alegria, impondo as suas verdades tiranas.
Acredito na arte.Ela é
necessária na educação.Ela nos tira do estado de hibernação e abre as portas de
nossa consciência para uma reflexão crítica sobre a forma que escolhemos para
dialogar com nossos alunos e com o mundo.
Salve o CAIC!
Salve todos que ajudaram a
construir esses vinte anos de história!

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